Semana da Consciência Negra
Expressões populares, muitas vezes usadas de forma inconsciente, carregam um peso histórico que remete ao período de escravidão no Brasil e perpetuam preconceitos raciais.
Para estimular essa reflexão, listamos algumas expressões, explicando seus significados e oferecendo sugestões de substituição:
- “Da cor do pecado”: Embora pareça um elogio, essa expressão remete à hipersexualização de corpos negros, prática que vem desde o período colonial. Evite usá-la e busque outros elogios que valorizem a pessoa sem reforçar estereótipos.
- “Dar com pau”: Usada para indicar algo em abundância, a expressão tem origem nos navios negreiros, onde objetos eram usados para forçar a alimentação de escravizados. Substitua por alternativas como “tinha muita gente” ou “em grande quantidade”.
- “Nas coxas”: Comumente associada a algo malfeito, há uma interpretação de que ela remete ao trabalho de escravizados moldando telhas de barro. Prefira termos como “mal acabado” ou “feito às pressas”.
- “Denegrir”: Derivada do latim denigrāre (“enegrecer”), essa palavra reforça a associação entre o negro e algo ruim. Substitua por “difamar” ou “desmerecer”.
- “Meia-tigela”: Possivelmente associada à ração reduzida dada a escravizados, a expressão ganhou conotação de algo de pouco valor. Use “sem importância” ou “medíocre” para substituir.
Conheça algumas expressões racistas e por que moldar o vocabulário é uma forma de combater o preconceito racial
- Expressões e seus significados. …
- “A coisa tá preta” …
- “Serviço de preto” …
- “Denegrir” …
- “Cabelo ruim” …
- “Ter um pé na cozinha” …
- “Samba do crioulo doido” …
- “Não sou tuas negas”
1) A coisa tá preta
Associa a cor preta a algo ruim, perigoso ou desfavorável.
Substitua por: “a situação é difícil”; “o caso é complexo” ou “a coisa está complicada”.
2) Cabelo ruim / cabelo bombril / cabelo duro
Menospreza as características físicas das pessoas negras, associando-as a coisas ruins ou de qualidade inferior. Os tipos de cabelos existentes em sociedade são diversos e não existem melhores ou piores.
Substitua por: “cabelos crespos” ou “cabelos cacheados”, conforme suas características.
3) Cor de pele
Expressão usada para especificar tons de bege e que faz alusão à pele branca. “A ideia de que as cores claras devem ser consideradas como padrão ideal para representar a pele humana é racista”, explica a cartilha do TSE. Não existe uma cor capaz de representar a pele humana, que é diversa.
Substitua por: “tom de bege”.
4) Crioulo ou crioula
De origem colonial, refere-se pejorativamente à pessoa negra que era escravizada.
Deve ser excluída do vocabulário.
5) Da cor do pecado
Apesar de parecer um elogio, carrega preconceitos. A ideia de pecado é associada a coisas negativas, a serem evitadas e afastadas. Além disso, o pecado referido é o da luxúria, o que sexualiza pessoas negras.
Deve ser excluída do vocabulário.
6) Denegrir
Seu uso está associado à ideia de macular, manchar ou sujar, remetendo à ideia de que tornar algo negro é negativo. Assim, reforça a ligação da pessoa negra a coisas ruins.
Substitua por: “difamar” ou “caluniar”.
7) Dia de branco
De origem escravocrata, esta expressão tem dois usos: “hoje é dia de trabalho” ou “hoje é dia de descanso”. No primeiro caso, associa a pessoa escravizada à preguiça e o branco ao trabalho – o que é uma incongruência, uma vez que a escravidão era o pilar econômico do país. No segundo, faz alusão ao descanso porque o branco, por não trabalhar, poderia ter um dia de luxos enquanto seus escravos sofriam.
Substitua por: “dia de trabalho” ou “dia de descanso”, conforme o contexto.
8) Disputar a negra
Refere-se a um jogo de desempate para determinar quem ganhará. Possui caráter racista e misógino e remete ao período da escravidão, quando homens brancos que possuíam mulheres escravizadas as apostavam como prêmio.
Substitua por: “partida de desempate”.
9) Esclarecer
Significa tornar algo claro, trazer luz sobre determinado assunto. “Transmite a ideia de que a compreensão de algo só pode ocorrer sob as bênçãos da claridade, da branquitude, mantendo no campo da dúvida e do desconhecimento as coisas negras”, explica a cartilha.
Substitua por: “elucidar” ou “explicar”.
10) Escravo e escrava
Transmitem a ideia de que a pessoa já nasceu sem liberdade, como algo inato à sua condição, ignorando que os africanos foram trazidos ao Brasil e forçados a trabalhar nessa condição.
Substitua por: “escravizado”, “escravizada” ou “pessoa escravizada”.
11) Estampa étnica
Refere-se a padronagens de tecidos que fogem de modelos europeus, sendo de países africanos ou de populações indígenas. O termo eleva o europeu e o branco como padrão e classifica manifestações de outras culturas como exóticas e não-civilizadas.
Substitua por: “estampa africana” ou “estampa indígena”.
12) Humor negro
Refere-se à comédia baseada em coisas mórbidas, macabras ou ilícitas. Associa algo fora do padrão de normalidade à pessoa negra.
Substitua por: “humor ácido”.
13) Inhaca
Inhaca é uma ilha localizada na baía de Maputo, em Moçambique. Também pode designar um monarca ou líder moçambicano. No Brasil, desde o período colonial, a palavra foi associada a odores corporais ruins. Assim, liga referências negras e africanas a algo ruim.
Substitua por: “mau cheiro” ou “odor ruim”.
14) Inveja branca
A inveja, no imaginário cristão, é uma conduta reprovável. Assim, o termo estimula a classificação de que tudo de ruim deve ser associado à pessoa negra, e tudo de bom, à branca.
Substitua por: “inveja boa”.
15) Lista negra
Lista de coisas ruins, proibidas, ilícitas ou que devam ser evitadas ou perseguidas. Assim, usa-se o adjetivo negro de forma pejorativa, associando a pessoa negra a coisas que não são socialmente aceitas e devem ser evitadas.
Substitua por: “lista maldita”, “lista suja” ou “lista proibida”.
16) Magia negra
A expressão é associada a rituais ou práticas religiosas socialmente rejeitados, tanto pelo seu conteúdo quanto modo de ação. Concentra dupla discriminação: associa a palavra “negra” a coisas malvistas e induz que manifestações religiosas negras são ruins.
Substitua por: “rituais proibidos”, “rituais inadequados” ou “práticas religiosas proibidas”.
17) Mercado negro
Refere-se a um conjunto de ações comerciais ilícitas, que desrespeitam regras jurídicas e morais. O emprego do adjetivo “negro” sublinha o caráter ilícito da ação. Assim, também associa a pessoa negra ao tráfico, ao contrabando, entre outras atividades criminosas.
Substitua por: “mercado ilegal”.
18) Mulata ou mulato
Usado para se referir às mulheres negras que possuem o tom de pele claro, o termo traz problemáticas. É possível que sua origem seja a palavra mula, um animal híbrido de cavalo e jumento. Além disso, afastava a negritude do conceito de beleza (quanto mais clara, mais bonita e aceita a pessoa seria). Foi usado para hipersexualizar a mulher negra.
Substitua por: “negra” ou “negro”.
19) Mulata tipo exportação
Estimula a excessiva sexualização da mulher negra, tratando-a como um produto a ser consumido.
Deve ser excluída do vocabulário.
20) Não sou tuas negas!
É utilizada para designar revolta e incômodo com situação ou comentário. Remete ao contexto colonial, quando mulheres escravizadas pertenciam a determinado senhor, que poderia dispor delas como bem desejasse, inclusive sexualmente.
“Assim, deprecia a mulher negra e a trata como objeto e propriedade, sendo passível de suportar todo tipo de comportamento”, completa a cartilha.
Substitua por: “Me respeite!”.
21) Nasceu com um pé na cozinha
É utilizada para demonstrar que alguém possui entre seus antepassados uma pessoa negra. Pressupõe que o espaço ocupado por uma pessoa negra em uma casa seria apenas o do trabalho doméstico.
Deve ser excluída do vocabulário.
22) Nega maluca
É utilizada para designar um conhecido bolo de chocolate. Porém, deprecia a mulher negra ao associá-la a um produto a ser consumido – uma sobremesa. Também reforça a sexualização indevida da mulher negra e tenta retirar sua capacidade de discernimento e inteligência.
Substitua por: “bolo de chocolate”.
23) Negra com traços finos
Associa a negritude a traços grosseiros e feios. Desse modo, a beleza negra estaria limitada aos que não se parecem com negras e negros.
Deve ser excluída do vocabulário.
24) Negra de beleza exótica
Exótico é tudo aquilo que não é comum, que foge de padrões esperados. Nenhuma dessas características pode ser empregada para designar a cor negra. “É possível falar em pessoas negras belas ou na beleza negra, mas nada há de exotismo nisso”, aponta a cartilha.
Substitua por: “beleza negra”.
25) Negro de alma branca | Preto de alma branca
Transmite a ideia de que não existem, por natureza, pessoas negras que sejam dignas, boas ou exemplares, sendo essas características típicas apenas das pessoas brancas. Para obter tais qualidades, a pessoa negra deveria imitar uma branca.
Deve ser excluída do vocabulário.
26) Ovelha negra
Pretende designar uma pessoa que foge aos padrões e às expectativas sociais. Segundo a cartilha do TSE, sua origem remonta à Antiguidade, quando os animais pretos eram considerados maléficos e, por isso, sacrificados em oferenda. Assim, associa a pessoa negra a coisas ruins, desvirtuadas ou inaceitáveis.
Substitua por: “rebelde” ou “ovelha desgarrada”.
27) Quando não está preso está armado
Usada para designar cabelos crespos, faz referência aos cabelos lisos como referência de beleza e associa o negro ao ambiente da criminalidade.
Deve ser excluída do vocabulário.
28) Samba do crioulo doido
Remete à música de mesmo nome composta por Stanislaw Ponte Preta (1968). O termo passou a ser utilizado para designar algo que não tem sentido ou um ambiente desorganizado e confuso. Assim, associa essa ideia de bagunça à pessoa negra.
Substitua por: “confusão” ou “bagunça”.
29) Serviço de preto
Significa trabalho feito de forma inadequada, incompleto, de baixa qualidade, o que embute a ideia de que apenas pessoas brancas podem realizar um trabalho bem executado. Também pode significar trabalho pesado, braçal e que não exige intelecto. Nesse caso, subentende-se que pessoas negras somente são capazes de exercer funções que necessitam de força física.
Deve ser excluída do vocabulário.
30) Teta de nega
Refere-se a um doce de chocolate recheado com merengue ou marshmallow. O nome faz uma comparação chula do formato do doce com o seio de uma mulher negra. Assim, hipersexualiza a mulher negra ao associá-la a um produto – sobremesa – a ser consumido.
Substitua por: “Nhá Benta” (seu outro nome, que é uma referência à personagem Dona Benta, de Monteiro Lobato) ou “doce de chocolate recheado com marshmallow”.

























































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































